CMN confirma dois cortes na meta de inflação para os próximos três anos

Tendo ficado fixada em 4,5% por 14 anos seguidos (2005-2018), a meta de inflação atribuída ao Banco Central do Brasil prepara-se para dar “dois passos e meio” para baixo.

O primeiro “passo” a que nos referimos acontecerá em 2019. Conforme amplamente esperado pelos mercados e devidamente refletido nas expectativas de inflação captadas pelo relatório Focus, o CMN anunciou na quinta-feira que a meta para 2019 será de 4,25%.

Foi bastante inesperado, por outro lado, o decreto publicado na própria quinta-feira estipulando que, doravante, o CMN passará a fixar, em junho de cada ano, a meta para o terceiro ano à frente. Junto com a meta de 2019, o decreto proporcionou ao CMN a oportunidade de dar mais um passo no processo de redução das metas de inflação, fixando a de 2020 em 4%. De certa forma, essa sequência de duas reduções vale como uma decisão salomônica entre simplesmente anunciar a meta de 4,25% para 2019, e a alternativa mais ambiciosa considerada pelos analistas de mercado, de reduzir a meta de 2019 direto para 4% – mantendo silêncio, em ambos os casos, a respeito de horizontes mais distantes. Comparada com essa segunda opção, contudo, a sequência de duas reduções tem o atrativo extra de ilustrar mais vividamente que nosso regime de política monetária está embarcando num processo de convergência em direção às metas de inflação típicas de mercados emergentes – ou seja, de 3% – em vez de sofrer um ajuste baixista mais frontloaded porém talvez pontual.

A promessa de um processo gradual de convergência em direção aos “padrões globais” foi inclusive explicitada pelos membros do CMN na entrevista coletiva que concederam na quinta-feira. O alongamento do horizonte para o qual as metas serão fixadas a cada ano reforça a credibilidade dessa promessa, na medida em que a escolha da meta para 2021 deverá ficar a cargo do time econômico atual, em junho de 2018, e não do seu potencial sucessor no mandato presidencial que se inicia em 2019. Embora não assuma compromisso com uma terceira redução de 25 pontos-base na meta, o guidance implícito do atual time econômico aponta, tentativamente, para uma meta de 3,75% em 2021. É a esse guidance preliminar para 2021 que nos referimos como um “meio passo” adicional no processo de convergência, além das duas reduções de já formalizadas para 2019 e 2020.

Ao rebater recomendações de reduzir também a meta de 2018 já fixada no ano passado (motivadas pela constatação de que, com a expectativa de uma inflação abaixo de 4% em 2017 e o BCB mirando em 4,25% em 2019, a meta de 4,5% para 2018 sinalizaria, nesse ínterim, uma corcova inflacionária pouco atraente e presumivelmente evitável) o presidente do BCB, Ilan Goldfajn, argumentou que as metas de inflação, uma vez fixadas, não devem ser alteradas ao sabor das circunstâncias do momento. Caso se reduzisse agora a meta do ano que vem somente porque uma inflação mais baixa passou a parecer alcançável em 2018, também seria defensável, pelo mesmo critério, elevar a meta quando as pressões inflacionárias recrudescessem. Esse argumento contribui para consolidar uma cultura que protegerá a trajetória descendente da meta que está sendo fixada para os próximos anos contra alteração posterior, na eventualidade de assumirem autoridades com menor disposição para desinflar. Para horizontes além de 2021, por sua vez, a continuação do processo de convergência dependerá inevitavelmente das preferências do time que estará encarregado de fixar as metas de inflação subsequentes.

À luz da mudança já anunciada nas metas, estamos revisando a nossa projeção para o IPCA para 4,25% em 2019 e para 4% de 2020 em diante (contra os 4,5% que tínhamos para todos esses horizontes). Essa estabilização no patamar de 4% equivale a encarar a possibilidade de metas ainda menores a partir de 2021 – por mais preliminar que tal sugestão tenha sido até agora – como capaz de contrabalançar os riscos de implementação a que tal estratégia de desinflação estará sujeita, principalmente no que depender de futuras administrações. Também em função da ancoragem mais firme estabelecida agora para os próximos anos e da nossa avaliação da dinâmica inflacionária de prazo mais curto, estamos reduzindo ainda a nossa projeção de 2018, para 4,2% (de 4,5%), e mantendo a nossa projeção para 2017 em 3,6%.

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