Perspectivas econômicas e políticas para 2018

Na última semana de 2017, propusemos um debate sobre perspectivas econômicas e políticas para 2018 com três importantes nomes do mercado financeiro: Carlos Eduardo Sequeira, sócio e head da área de análise do BTG Pactual, José Carlos Carvalho, economista chefe da Paineiras Investimentos e Sergio Goldenstein, gestor da Flag Asset.

Na ocasião, foram discutidos diversos assuntos, como cenário global, taxa de juros, inflação, investimentos, bolsa de valores e perspectivas para as eleições de 2018.

Falando em cenário global, o economista PHD pela Universidade de Yale, José Carlos Carvalho, acredita que o momento está bastante favorável para os países emergentes. “Acho que estamos vivendo momentos muito interessantes na economia global e no Brasil em particular. Nos Estados Unidos, que talvez seja o principal foco da atenção, talvez o mercado mais relevante para os mercados emergentes, além da China, é claro, mas em termos de política monetária os EUA têm um papel importante”, explica. “Em geral, quando há crescimento (nos EUA) é bom para emergentes. O problema é quando se chega ao final do ciclo, porque essa subida de juros é um “soquinho no fígado“ da economia todo mês e quando a subida de juros foi de tal tamanho que conseguiu frear a economia, aí sim é ruim para os emergentes, porque o juro está alto e a demanda começa a cair, aí sim é perigoso”, conclui.

Falando em Selic, os economistas apostam que o Banco Central brasileiro manterá a taxa de juros nos patamares baixos que temos observado recentemente. “O Brasil, além desse cenário internacional favorável, está vivendo um momento muito particular e muito positivo. A gente teve uma queda de juros muito significativa no espaço de um ano. Os juros eram 14,25%, já estamos em 7% e provavelmente deve vir até um pouco abaixo de 7%, e isso com uma defasagem, que a gente deve ver no próximo ano”, explica José Carlos Carvalho.

“Nós, na Flag Asset, estimamos que a SELIC chegue a 6,75% em fevereiro, e não haja qualquer aumento ao longo do próximo ano. A partir de 2019 vai depender muito se o Brasil vai ser capaz ou não de implementar as reformas fiscais que são tão necessárias para resolver os nossos desequilíbrios”, completa Sergio Goldenstein, com 11 anos de carreira no Banco Central e mais de 40 reuniões do COPOM no currículo.

Confira o vídeo abaixo na íntegra:

 

Carlos Eduardo Sequeira: Olá. Meu nome é Carlos Eduardo de Sequeira, sou chefe de análise do banco BTG Pactual, responsável pelas estratégias de equities do banco.

Eu tenho  prazer de estar acompanhado aqui pelo Sérgio Goldenstein, da Flag Asset. O Sérgio foi chefe do departamento de mercado aberto do Banco Central, gestor da ARX, diretor da B3, consultor do FMI.

E tenho também aqui o prazer de estar acompanhado pelo José Carlos Carvalho, economista chefe da Paineiras Investimentos. O José foi economista do Pactual, sócio fundador da JGP e é economista PHD pela Universidade de Yale.

O nosso objetivo hoje aqui é discutir um pouco dos cenários para a economia global, economia americana, inclusive, economia brasileira e perspectivas de investimentos para 2018.

Com isso eu passo a palavra ao Zé e ao Sérgio para começar o debate.

José Carlos Carvalho: Obrigado. Acho que a gente está vivendo momentos muito interessantes na economia global e no Brasil em particular. Nos Estados Unidos, que talvez seja o principal foco da atenção, talvez o mercado mais relevante para os mercados emergentes, além da China, é claro, mas em termos de política monetária os EUA têm um papel importante.

A gente está vivendo um cenário onde você tem dois vetores andando em direções opostas. Um é o ciclo econômico americano, que é um ciclo que começou em 2008, 2009, talvez 2010 e tem já sete anos, então é um ciclo que as pessoas costumam dizer que já está velho.

Então, todo mundo já espera que em algum momento vá aparecer uma recessão e por isso que as taxas de juros longas no Estados Unidos estavam se comportando de maneira bem tranquila, ou seja, não estavam subindo muito.

E agora, a notícia recente do pacote fiscal americano aprovado que deve dar um novo estímulo para a economia.

Se você olhar os dados de investimento, e, só para explicar ao leigo, não estamos falando de caderneta em poupança. A gente está falando de investimento econômico. Construir uma fábrica, construir uma estrada.

Todos esses dados de investimentos nos EUA estão acelerando. Então, talvez, a grande coisa curiosa que a gente tem no momento nos EUA é que se está com um ciclo velho, onde todo mundo já espera que esteja perto do final, e vem um choque novo de demanda desse pacote fiscal americano que deve estimular o crescimento.

Então, se você olhar o mercado de juros, hoje em dia há uma diferença grande nos EUA entre os juros de 2 anos e o de 10 anos. O de 2 anos está dizendo o seguinte para a gente: ele estava subindo, estava em 1%, muito lá atrás, estava em 1,5%, agora está em 1,80%. Ele está dizendo: “olha, esse pacote fiscal vai pegar” e durante dois anos a demanda por capital irá subir. Por isso o preço do capital, que é a taxa de juros, está mais alto.

Agora, ao mesmo tempo em que esse de 2 anos está subindo, o de 10 anos não está andando. Ele está dando a seguinte informação: “Esse ciclo já tem 7 anos. Ele não terá mais 10 anos. Não haverá um ciclo de 17 anos.”. Então o FED irá elevar os juros, haverá mais crescimento nos próximos 2 anos. O FED irá elevar os juros, mas num horizonte de 5 a 10 anos esse ciclo irá morrer e vir uma nova recessão.  Estamos nesse momento.

Então, isso, a princípio, é um cenário bom para o Brasil. O Roberto Campos falava que o Brasil não perde uma oportunidade de perder uma boa oportunidade.  A gente vem perdendo várias boas oportunidades porque os últimos anos têm sido muito bons para o Brasil e a gente não fez nada. Mas o que eu acho que irá acontecer nesse cenário internacional, no fundo ele está dizendo que temos mais alguns anos para aproveitar e fazer as reformas que são necessárias para o Brasil.

Porque, se você olhar a correlação, por exemplo, do MSI (que é a bolsa de mercados emergentes, não de Brasil, mas de emergentes em geral) com a taxa de juros do FED, muitas vezes a gente pensa o seguinte: “ah não, quando o FED está sublindo os juros isso automaticamente será ruim para os emergentes.”. Não é verdade. Enquanto o FED está subindo os juros é porque há crescimento no mundo e nos EUA em particular.

Então, em geral, quando há crescimento é bom para emergentes. O problema é quando se chega ao final do ciclo, porque essa subida de juros é um “soquinho no fígado“ da economia todo mês e quando a subida de juros foi de tal tamanho que conseguiu frear a economia, aí sim é ruim para os emergentes porque o juro está alto e a demanda começa a cair, aí sim é perigoso.

Talvez a gente tenha mais dois anos de oportunidade de mundo benigno, para o Brasil fazer as reformas, fazer o dever de casa.

Sergio Goldenstein: Eu compartilho da visão do Zé Carlos, de um ambiente externo benigno, favorável. Porque, em síntese, nós temos: um crescimento sólido, um cenário de inflação moderada (a gente não percebe pressões inflacionárias relevantes) e ampla liquidez global.

Porque a perspectiva é que o FED, devido a essa inflação baixa, promova o aperto monetário de forma muito moderada. Ao mesmo tempo nós temos bancos centrais importantes, como o do Japão e o da Europa, ainda injetando liquidez. Então a gente ainda percebe um cenário de curto e médio prazo bastante favorável para mercados emergentes, dada essa ampla liquidez global e esse mundo com crescimento mais forte.

Carlos Eduardo Sequeira: E nesse contexto vocês diriam que é razoável imaginar que o Banco Central brasileiro possa manter a taxa de juros nos patamares baixos que a gente tem observado mais recentemente?

José Carlos Carvalho: Eu acho que sim. Acho que o Brasil, além desse cenário internacional favorável, a gente está vivendo um momento muito particular e muito positivo. A gente teve uma queda de juros muito significativa no espaço de um ano. Os juros eram 14,25%, já estamos em 7% e provavelmente deve vir até um pouco abaixo de 7%, e isso com uma defasagem, que a gente deve ver no próximo ano.

Se você olhar a relação entre política monetária e crescimento, que é a coisa mais básica da economia, a gente pode esperar um crescimento bem maior do que o consenso do mercado. A gente aqui na Paineiras espera 4% de crescimento para 2018.

Acho que todos estão revisando isso. Por exemplo, a seis meses atrás, para 2017, todo mundo esperava 0,5%. Hoje já será perto de 1%, 1,1%.

Então, se você olhar alguns dados, produção industrial está crescendo 4% ano a ano. Dentro de produção industrial, a produção de bens de capital, ou seja, bens de investimento, está crescendo 15% ano a ano. Não é uma coisa ruim. Você está vendo crescimento. O IBC-Br, do Banco Central, que é uma proxy, uma medida do PIB, mas tem a vantagem de ser mensal, já está crescendo 2,90% no ano.

Eu acho que esse crescimento de 4% para o ano que vem (2018) está se consolidando. E o que você perguntou sobre o Banco Central. Por que é única essa oportunidade? Porque no ano que vem (quando digo ano que vem eu me refiro a 2018), a gente vai ter a oportunidade de ter um crescimento forte, mas sem acelerar muito a inflação. Por que não vai acelerar muito a inflação? Existem alguns conceitos.

A inflação costuma acelerar quando você está usando a economia de maneira muito forte, então há dois conceitos com os quais a  gente pode medir isso. Um é a taxa de desemprego, que era 5%, 6%, chegou a 13% e hoje está em 12%. 12% é muito desemprego. Então não há pressão de salário.

E junto com a taxa de desemprego, em paralelo, tem o desemprego da economia, das máquinas, de tudo isso, que a gente chama de hiato do produto. É a capacidade ociosa. Então, só pra gente ter uma noção, a produção industrial a gente mede em índice, se chegou a um índice de 105, hoje está em 85, ou seja, está produzindo nas indústrias 15% a menos do que a gente chegou a produzir.

Então tem 15% pra subir, que é pouco inflacionário e se a gente pegar esse mesmo conceito e usar pro PIB, aí é mais difícil que a gente chama de hiato do produto, a gente estima que tenha mais ou menos uns 7% de ociosidade.

Ou seja, em 2018 a gente vai poder crescer e não vai gerar muito inflação porque tem muita ociosidade, portanto o banco central não só vai poder levar os juros a provavelmente abaixo de 7% como vai poder ficar nesse patamar durante algum tempo.

Sergio Goldenstein: Nós na FLAG também compartilhamos dessa visão bastante otimista com relação as perspectivas para inflação.

O primeiro ponto, a gente vai encerrar esse ano com um IPCA na casa de 12,8%  pela primeira vez abaixo do piso, da banda de inflação.

O piso seria de 3%, com isso o primeiro fator favorável é a menor inércia pro próximo ano, e a inércia é um componente importante na inflação no Brasil, e pra citar um exemplo, o salário mínimo deve subir por volta 2% esse ano, e isso é bastante importante pra deixar a inflação de serviços bastante contida,

Além disso como o José Carlos mencionou, a ociosidade vai permanecer, seja pelo mercado de trabalho, seja pelo lado da indústria pelo lado do capital.

E temos também um Banco Central com muita credibilidade, isso significa que as expectativas de inflação estão ancoradas, quando a gente olha para a pesquisa Focus, publicidade pelo BC, o mercado acredita que a inflação fica na meta em todo o horizonte relevante da política monetária.

Então quando se tem essa conjugação de fatores, aliado ao cenário externo benigno, que, portanto, a gente acha bastante improvável uma depreciação forte do cambio, a não ser que o risco eleitoral aqui no Brasil suba bastante, nossa projeção é de um pensar de 3,8%, para o próximo ano, ante uma meta de 4,5%.

Dar essa projeção, nós estimamos que a SELIC chegue a 6,75% em fevereiro, e não haja qualquer aumento ao longo do próximo ano.

A partir de 2019 vai depender muito se o Brasil vai ser capaz ou não de implementar as reformas fiscais que são tão necessárias para resolver os nossos desequilíbrios.

Carlos Eduardo Sequeira: Sergio, nesse cenário de PIB acelerando e juros baixo e mantido nesse patamar mais baixo ao longo do ano, que tipo de estratégia de investimento você acha que faz mais sentido?

Sergio: É, começando pelo mercado de juros, é interessante notar que apesar do ciclo de relaxamento monetário estar próximo do fim, ainda há muita oportunidade pelo lado de investimentos. Porque?

Quando você olha pra curva de juros, ela está com uma inclinação muito acentuada. O que isso significa?

Que o mercado hoje, precifica um ciclo de aperto monetário de quase 4 pontos percentuais começando a partir de meados de 2018. Mas porque isso? Porque o mercado acredita que a inflação vai subir de forma significativa? Não!

É porque tem muito prêmio político e fiscal embutido. Então há sim uma oportunidade interessante tanto na parte intermediária quanto longa na turma de juros. Isso vale tanto para juros préfixados, quanto para as NTN-Bs, e parece assim que na medida da inflação permaneça em patamar baixo, como a gente acha que vai acontecer, esse prêmio vai ser consumido.

Então no mercado de juros tem que simetria positiva relevante pra posições aplicadas tanto na parte longa quanto na parte intermediária.

Entrando no mercado de bolsa, a gente também vê um upside bastante relevante. E aí acho que são uma conjunção de vetores.

Primeiro vetor: esse juros baixo, vai levar a uma realocação de portfólios. Aquele mundo fácil do CDI elevado que permitia um grande ganho real com relação a inflação, está terminando, e com isso vai haver uma migração com mais risco, um candidato natural é bolsa de valores,

O segundo vetor, como o José Carlos mencionou, esse ambiente de maior crescimento com juros baixos, por si só é um ambiente macro que favorece as empresas, favorece a expansão dos lucros.

Um terceiro fator também, é que nós passamos por um período muito longo de recessão. As empresas que sobreviveram tiveram que se tornar mais eficientes, fizeram grandes cortes de custos, na medida agora que a economia retoma, a gente vai ter surpresas para o lado da receita, que vai levar a uma re-precificação de múltiplos.

Essa conjuração destes três vetores nos permite vislumbrar, um upside relevante para a bolsa ao longo do próximo ano e na verdade até a longo prazo também. Qual o risco hoje? É o cenário eleitoral. Então a gente tem na verdade uma condição binaria, se por acaso houver uma perspectiva de uma vitória de um candidato reformista, a bolsa vai chegar a níveis assim superando com facilidade suas máximas históricas. Por outro lado, se houver a perspectiva de vitória de um candidato populista, não comprometido com as reformas, a gente pode ter uma grande realização nos diversos mercados.

Carlos Eduardo Sequeira: Eu até ia falar um pouco mais sobre bolsa. Concordo com essa visão, acho que a gente tem o juros real de curto prazo, e o próximo ano ainda é muito diferente do juro real de médio e longo, e a bolsa e o investidor são muito sensíveis ao ganho de juro real que pode ter na aplicação de Renda Fixa versus bolsa.

E a gente recentemente fez um exercício em que a gente rodou o que seria o potencial de alta de bolsa, com cenário de juros real a 5% de juro real, que é o que as curvas mais longas apontam e um cenário de juro real na casa de 3% que é o que apontam as curvas de juros mais curtas.

E usando um cenário de juro real por um período suficientemente longo de tempo, aponta pra um Bovespa acima de 100mil pontos, que é o seu ponto muito acima das máximas históricas.

Por outro lado, se perpetua um cenário real de 5% ou mais, a gente teria um ajuste importante da bolsa possivelmente para a casa dos 55 mil pontos, então aí entra a discussão, esse binário na discussão que depende muito do cenário eleitoral.

Até voltando também um pouco no ponto que você mencionou sobre as empresas, a gente vê exatamente o que você mencionou sobre as empresas terem feitos grandes ajustes nas suas bases de custo durante a recessão, para enfrentar a recessão, e o que a gente já viu em 2017 e que a gente acredita que verá novamente em 2018, é um crescimento de lucro consolidado.

A gente olha o consolidado de todas as empresas, o crescimento de lucro é muito maior do que o crescimento de PIB nominal, quer dizer o multiplicador do crescimento do lucro das empresas versus o crescimento do PIB nominal, está muito maior do que historicamente ele é justamente pelo ajuste que as empresas fizeram.

Então neste ano que passou agora o crescimento de lucro das empresas passou de 20% e para 2018 a gente imagina que a gente possa crescer novamente em torno de 18%, então um crescimento bem maior do que sugere o PIB.

E aí a gente vai entrar no cenário de discussão eleitoral que a gente não pode fugir e também a discussão sobre a reforma.

Acho que está tudo encadeado, o candidato que pode vencer e como ele vai endereçar as reformas que são tão necessárias. E eu queria abrir o debate agora para falar um pouco sobre eleição.

José Carlos Carvalho: Esse é um assunto sempre espinhoso e difícil de abordar. Fazer previsão é difícil, especialmente sobre o futuro.

Carlos Eduardo Sequeira: Política então é um desafio incrível.

José Carlos Carvalho: É incrível. Mas, olhando pelo lado do economista, eu penso muito no Brasil como se fosse uma empresa alavancada.

Você acabou de falar do caso das empresas que por alavancagem operacional e financeira vão crescer muito mais os lucros do que o crescimento do PIB, e eu acho que o Brasil é um pouco assim também.

A gente tem um bando de deficiências que quando dão erradas dá tudo errado e quando começa a dar certo também tem alavancagem para o lado bom.

Então, como que começou a funcionar isso? A gente conseguiu ganhar a luta contra a inflação. Ganhou a luta contra a inflação, o que está acontecendo agora? Você está tendo uma queda de juros muito maior do que as pessoas esperavam.

Qual é o próximo passo? Agora o crescimento do ano que vem é muito maior do que as pessoas esperavam.

E aí a parte fiscal vai ser mais fácil de ser resolvida a curto prazo, se a gente não resolver os problemas de longo prazo, também do que as pessoas esperavam.

E você vai ter mais crescimento, o desemprego vai cair mais, então eu acho que ter as eleições no ano que vem, onde esse ambiente melhor vai estar acontecendo, você reduz muito a chance de candidatos radicais e privilegia a chance de candidatos moderados que implementarão essas reformas.

Você vai pode dizer “Está vendo ó, a reforma trabalhista é boa, porque olha só, você está tendo mais emprego do que tinha no passado”. Então eu acho que tudo isso ajuda a agenda de reformas. Óbvio que é difícil, não vai ser fácil, mas facilita, comparado pelo menos com o que a gente tinha no ano passado.

Agora tem muitas coisas exógenas que a gente vai ter que ficar observando ao longo do tempo

Quem são os candidatos, brigas judiciais para decidir quem são os candidatos, quem é o candidato do centro. Não tem um candidato natural de centro. Poderia ser o Geraldo Alckmin, mas as pesquisas não mostram ele com uma liderança que torne isso inequívoco.

Têm alguns candidatos que estão fora no momento mas podem voltar, também parece provável.

Então tudo isso vai tornar bastante volátil o cenário. Eu só diria que por esse viés econômico que eu tenho, de achar que as coisas vão estar melhores ano que vem, eu imagino que um candidato não radical tem mais chances de ganhar.

José Carlos Carvalho: Continuidade do ponto de vista de política econômica.

Sergio Goldenstein: Pegando esse gancho a gente tem que ficar preparado, porque a tendência para os mercados é que exista aumento de volatilidade.

Estamos agora há menos de um ano das eleições, assim como as pesquisas mostram ainda não houve essa consolidação de um candidato de centro, há indefinição até em relação de quem são os candidatos de outros campos e na medida em que não haja essa consolidação é normal que o mercado comece a aumentar o seu grau de nervosismo.

Apesar de ter uma visão otimista com relação tanto a perspectiva macroeconômica do país como em relação a probabilidade de vitória de um candidato de centro comprometido com as reformas, esse cenário está longe de ser garantido.

Então assim, olhando para os mercados é natural que suba a volatilidade e é natural que você se prepare seja com posições às vezes um pouco mais táticas ou seja também realizando hedges para se preparar para uma situação mais de cauda.

Carlos Eduardo Sequeira: Eu compartilho das duas visões. A visão de que a gente tem, que com a economia melhorando a chance de um candidato de centro direita alinhado com as políticas econômicas atuais reformista e que ele venha vencer as eleições, ela aumenta naturalmente.

A questão toda é quem é essa figura, quem é o cara que vai incorporar essa demanda por continuidade, por políticas econômicas e reformas. E com isso a volatilidade acho que é inevitável.

E até pensando nesse campo, eu vou me adiantar e depois passo a palavra para vocês também. O que a gente tem tentado, da maneira que a gente tem olhado bolsa, com esse viés positivo, de que tem um potencial de alta grande, especialmente se a gente considerar a vitória de um candidato alinhado com as reformas. Mas a gente está buscando ativos que sejam mais resistentes a volatilidade que deve ser gerada nesses próximos meses na medida e que o debate eleitoral avança. E eu diria, e não sei se vocês concordam comigo ou não, mas me parece que o mercado hoje precifica uma alta chance de não haver aprovação de reforma da previdência, mesmo que um formato muito diluído, nesse governo. Parece que o mercado começa a acreditar que é muito difícil, e de fato é, que tenha aprovação nesse governo.

Então qualquer notícia positiva nesse campo, nessa direção, poderia ajudar o preço dos ativos brasileiros.

Sergio Goldenstein:  Nesse caso gostaria de destacar duas oportunidades que para mim são interessantes.

Primeiro, eu já mencionei um pouco sobre a inclinação forte da curva de juros, quando a gente olha esses juros intermediários, vencimento em 2020 por exemplo, me parece que é um jogo de ganho ou ganho.

Se o cenário político for favorável com consolidação de um candidato de centro, reformista, a gente vai ter depreciação do câmbio, a inflação vai continuar muito baixa, e portanto toda essa alta que está embutida na curva de juros não vai se materializar.

Vamos pensar agora em um cenário negativo? Imagina que um candidato populista venceu as eleições.

Não me parece que o primeiro ano de um candidato populista seria um ano de choque de juros. Então haveria um choque de 400 basis points, 400 pontos percentuais da Taxa Selic.

Então quando você olha assim, janeiro 20, me parece uma oportunidade clara de uma assimetria positiva muito interessante.

Quando a gente olha os riscos que estão embutidos em diversos mercados, parece que o mercado de juros é o que mais embute os riscos, mais do que o mercado de cambio, mais do que o mercado de bolsa.

E aí entrando um pouco no mercado de bolsa, me parece que é quase inevitável que o setor de consumo continue se expandindo.

A gente tem um mercado de trabalho que vem melhorando de maneira gradual, o mercado de credito se recuperando e o consumo das famílias é mais independente do círculo político.

Então a gente está bem animado no mercado de bolsa no setor de varejo no setor de consumo.

Carlos Eduardo Sequeira: Interessante.

José Carlos Carvalho:  Só ligando as duas coisas que vocês falaram, os 400 basis points de alta de juros que tem na curva e o valuation que você falou dependendo do juros, eu estava lembrando de um artigo que o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, falou recentemente, um artigo que ele escreveu sobre a queda de juros definitiva em Israel e no México.

E a conclusão principal dele, é que a queda nos dois países ocorreu em momentos de crise. Eles também estavam presos em uma estratégia de juros muito elevados e quando veio uma recessão, muita capacidade ociosa foi o momento onde teve veio a queda de juros.

Talvez a eleição seja o que ainda está segurando um pouco um ajuste semelhante, mas talvez 2018 seja o momento em que, caminhando de uma maneira otimista, você tenha essa mudança de patamar de queda de juros longa.

Até ainda está alta, está sei lá, 5,5% em torno de 5,5%, mas estava 7,8%, 8% então quer dizer já teve alguma queda, mas um patamar para um nível mais civilizado pode ocorrer em 2018 e aí a gente tem os ganhos do DI e os ganhos da bolsa pelo valuation que você falou mais cedo.

Carlos Eduardo Sequeira: Se a gente tiver um cenário fiscal mais consolidado, não há razão para que as taxas de juros reais no Brasil sejam tão mais elevadas do que em outros países, como nossos colegas aqui na região. Hoje praticamos taxas de juros mais elevadas do que praticam outros países da região, e alguns até não tão promissores quanto o Brasil.

Sergio Goldenstein: E outro ponto relevante, em um cenário de vitória de um candidato reformista, a taxa de cambio experimentaria uma apreciação relevante.

É importante destacar que as conta externas hoje do Brasil são muito sólidas. Nós temos 380 bilhões de dólares em reservas, um déficit de conta corrente muito pequeno e volume bastante expressivo de investimento direto estrangeiro. Mas a participação de estrangeiros no mercado brasileiro está muito pequena, está muito abaixo da média histórica, você pode olhar isso seja no mercado de bolsa, seja na Renda fixa. Havendo a consolidação de um governo reformista, o fluxo cambial pelo lado financeiro seria muito expressivo, então a gente poderia ver até uma taxa de cambio indo para baixo de três com alguma facilidade.

Carlos Eduardo Sequeira: E nesse ponto Sergio, achei interessante que você mencionou e de fato, a gente acompanha os dados de alocação de fundos estrangeiros para Brasil, tanto fundos globais quanto fundos para mercados emergentes, e a gente está em patamares muito baixos. Os fundos globais estão voltando para os níveis de investimento, com essa saída de recursos que houve agora recentemente, a gente está voltando para os níveis que foram os níveis de fevereiro de 2016, quando a crise estava absolutamente deflagrada e a gente não sabia quem era o presidente, não sabia se o presidente era a Dilma…

Hoje estamos de volta para patamares de alocação daquele cenário de estresse absoluto e a gente não vive mais um cenário de estresse, pelo contrário, estamos discutindo talvez uma mudança de patamar positiva e o que é interessante também é a alocação para renda variável de fundos locais ainda é low histórico de 17 anos. A gente está nos níveis mais baixos de 17 anos, então tem muita oportunidade, eu acho.

Sergio Goldenstein:  Isso é verdade para Renda Variável e é verdade para Renda Fixa. Vou dar um exemplo, quando nós observamos o estoque da dívida mobiliária, da dívida pública em títulos, os estrangeiros já detiveram 20% do estoque.

Hoje esse patamar chegou a 12%, a gente está praticamente na mínima histórica em termos de participação de estrangeiros na nossa dívida em títulos públicos.

Por mais que os juros no Brasil tenham caído, nosso patamar ainda é acima de outros mercados emergentes. Então, se houver a percepção de que o Brasil está caminhando com as reformas, que nós vamos resolver os desequilíbrios fiscais, que o país volta a crescer, há um espaço considerável para uma realocação nesse mercado também.

Carlos Eduardo Sequeira: E aí, de novo desculpa, eu estou pulando, a gente está emendando um assunto no outro. E acho que é interessante observar o que aconteceu com os mercados de capitais nesse último ano do ponto de vista, tanto operações de Renda Variável quanto de operações de Renda Fixa.

O mercado de Renda Variável retomou depois de dois anos sem operações relevantes, a gente voltou a ter uma série de abertura de capital e captação de recursos via mercado de ações e também a quantidade de empresas brasileiras hoje emitindo bonds no exterior é um número incrível. A gente mesmo acessou o mercado depois de anos com taxas bem atraentes, então o interesse está lá e se as coisas forem para o lugar certo, o dinheiro está disponível.

Discutindo um pouco sobre as alocações setoriais, o Sergio mencionou o varejo como setor que tem uma perspectiva boa para 2018, que eu concordo totalmente, e acho que a gente pode ter outras boas oportunidades em setores, de novo, quanto mais ligado a recuperação da economia doméstica, eu acho que melhor deve se beneficiar o setor, a gente tem alguns setores que a gente gosta além de varejo, como bancos, ainda que a gente possa ter talvez crescimento de lucros não tão grande quanto a gente viu no ano passado, ele tende a se recuperar e tende a crescer junto com a economia brasileira.

A gente gosta de seguradoras, construtoras, a gente acha que tem uma oportunidade para as construtoras começarem a se recuperar, a gente já começa a ver um crescimento de demanda por imóveis de novo no mercado. Então esse grupo de empresas, sempre pensando em empresas mais ligadas ao mercado doméstico e uma coisa que a gente tem evitado nesse cenário de fluxo entrando e real se apreciando, a gente tem evitado empresas que são basicamente exportadoras e que se beneficiam de um real mais valorizado, de novo nesse cenário de que as coisas vão na direção que a gente espera que elas sigam.

Sergio Goldenstein: Nós da FLAG compartilhamos da visão otimista com ações do setor de construtoras. De forma gradual a gente voltou a fazer alguma alocação, justamente pela percepção que a taxa de juros baixa veio para ficar e isso é muito bom para o setor e o mercado de crédito vem se recuperando. Foi um setor que sofreu muito nos últimos anos e, portanto, hoje opera com um desconto bastante relevante.

José Carlos Carvalho: Na Paineiras, a gente é um fundo Macro. Então a gente não opera ações específicas, nem setores. Essa nossa visão a gente vem expressando basicamente via opções, como a gente discutiu o cenário é bastante arriscado no ano que vem, então a gente quer limitar as perdas, então a gente tem operado toda a nossa exposição em bolsa, 100% via opções, primeiro pelo motivo do risco e segundo porque a volatilidade global para ações está muito baixa e no Brasil também está bastante baixa, então a gente acha uma boa oportunidade para pegar essa possível alta de bolsa em 2018 operando via opções. É bom pelo lado da eleição para evitar o risco da eleição e parece um instrumento barato.

Carlos Eduardo Sequeira: Perfeito, gostaria de agradecer ao José Carlos da Paineiras e Sergio da FLAG pela oportunidade e pelo debate, que acho que foi super enriquecedor sobre as perspectivas para 2018 e passar a palavra primeiro ao Zé e depois ao Sérgio para falar um pouco sobre o debate e sobre os produtos de vocês.

José Carlos Carvalho: Obrigado Cadu pela oportunidade, é sempre um prazer trocar ideia com você e com o investidor, tentando passar um pouco do que a gente está fazendo. O nosso fundo Paineiras Hedge já está na plataforma do Pactual e a gente está à disposição sempre que vocês ou os investidores que quiserem procurar a gente para saber o que a gente está fazendo, trocar ideias e estamos à disposição.

Carlos Eduardo Sequeira: Obrigado Zé

José Carlos Carvalho: Obrigado, foi um prazer participar do debate. Os fundos da FLAG Asset, nós temos um fundo multimercado Macro e um fundo de ações, também estão na plataforma. Estamos à disposição para trocar ideias e quem quiser acessar nosso site pode se cadastrar para passar a receber o nosso material que a gente produz tanto semanalmente, quanto mensalmente.

Carlos Eduardo Sequeira: Ok muito obrigado, obrigado a todos e até a próxima.

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  1. Se a econômia (Mercado financeiro) depender da Reforma da Previdência, então já era, não vamos aceitar esta Reforma, do que adianta um País forte e o povo só se ferrando, sendo que a roubalheira e o descaso com o dinheiro público irá continuar, e daqui uns 10 anos vão reformar mais o que ? se depender de mim e da grande maioria da população esta reforma não vai sair