Como montar uma carteira de investimentos ideal?

Quando uma pessoa começa a ter sobras em seu orçamento, ela se depara com a necessidade de fazer alguma coisa com esse dinheiro. A primeira atitude é colocar o dinheiro na poupança e daí seguir a vida. Sempre que sobra mais recursos, ela vai lá e coloca mais dinheiro na poupança e um capital vai se acumulando ali.

Então, em um belo dia, esse poupador recebe uma ligação do seu banco informando sobre alguma oportunidade de investir melhor aquele dinheiro. E assim, acata a sugestão e troca a poupança por um investimento em um CDB, fundo, previdência ou qualquer um dos outros produtos que lhe são ofertados.

Na verdade, esse poupador raramente compreende muito bem aquilo que está fazendo, a característica dos produtos que adquire e não sabe responder sequer se aquilo que foi ofertado é realmente bom para suas necessidades. Mas, diante de sua própria incapacidade, segue-se o rito: sobra um dinheiro, liga para o gerente da sua conta e faz uma aplicação.

O mero poupador e o investidor de fato

Eu noto uma diferença de comportamento em investidores que me faz classificá-los em dois grupos: o grupo dos meros poupadores e o grupo dos investidores de fato.

Chamo de meros poupadores aqueles que têm sobras no orçamento ou recebem um dinheiro inesperado e fazem algum tipo de investimento. Eles mesmos não sabem dizer por que estão fazendo aquela aplicação. O desejo é de consumir algo, trocar de carro, trocar de apartamento, viajar, etc. Portanto, ele está pronto para lançar mão dos recursos e gastá-lo rapidamente caso se depare com qualquer oportunidade que lhe proporcione um prazer imediato.

Já o grupo dos que eu chamo de investidores de fato é formado por aqueles indivíduos que também possuem sobras no orçamento, mas traçam objetivos financeiros mais longos. Visam a acumulação de patrimônio, a valorização de seu capital ao longo do tempo, planejam sua independência financeira, sua velhice confortável e até mesmo o legado que querem deixar para herdeiros, facilitando-lhes os caminhos.

Esse segundo grupo normalmente possui maior interesse em entender as coisas do mercado financeiro e também das próprias atividades empresariais e acaba adquirindo maior conhecimento nos assuntos relacionados às finanças.

A transformação do mero poupador no investidor de fato

No momento em que o mero poupador percebe que investir pode lhe permitir alcançar sonhos mais audaciosos, ele começa a refinar suas escolhas financeiras. Ele começa a perceber que o caminho da acumulação pode lhe fazer realizar sonhos mais ousados. E, nesse instante, ele começa a se transformar num investidor de fato, que vai começar a fazer escolhas e priorizar suas decisões colocando suas metas mais audaciosas no centro de tudo e para isso, naturalmente, é necessário entender melhor o que fazer com o seu dinheiro e o que deve ser priorizado: prazeres imediatos ou metas audaciosas de longo prazo.

O aprendizado sobre investimentos

Uma vez transformado em um investidor de fato, inicia-se uma procura por informações sobre o mercado financeiro, produtos de renda fixa e variável, corretoras, bancos de investimentos, fundos e tudo que compõe este novo mundo de possibilidades.

O investidor começa a compreender os produtos, suas características, riscos e etc. E aí um outro gatilho é acionado: ele percebe que a escolha dos seus investimentos pode ser essencial na realização de seus objetivos! E assim não é apenas uma questão de acumular e aplicar num produto. Não é mais olhar produtos, mas sim a carteira! Ele passa a compreender que uma carteira de investimentos é como um time de futebol, onde existem jogadores em diversas posições diferentes, fazendo coisas diferentes e que, no conjunto, precisam alcançar metas!

No entanto essa percepção é difícil pois esse investidor se depara com uma enxurrada de informações sobre os produtos, características, indicadores, riscos, além de uma outra enxurrada de informações sobre cenários econômicos, política, crises nacionais e internacionais e isso tudo gera uma enorme ansiedade que traz a falsa impressão de que é necessário mudar seus investimentos constantemente conforme o mundo se move e as notícias acontecem.

E isso fatalmente impede que ele se concentre em montar seu time, que é sua carteira de investimentos, de maneira equilibrada e que o leve ao alcance de suas metas.

Montando a carteira ideal

Para que uma carteira de investimentos ideal seja montada, o investidor não deve se basear em produtos, rentabilidades, riscos e cenários. Ele deve centrar sua decisão em suas necessidades pessoais e seus planos financeiros. Afinal de contas o que são os investimentos que não uma ponte que levam pessoas aos seus sonhos? E esses sonhos estão na vida real! Eles podem incluir: montar um negócio próprio, pagar os estudos dos filhos, ter uma velhice confortável, ter tempo para curtir os netos, entre outras coisas.

Então por que centrar a estruturação do seu time de futebol, ou seja, da sua carteira de investimentos, em algo que não seja a meta pessoal?

O futuro é imprevisível

Um outro componente que dificulta muito a vida do investidor é a falsa perspectiva de que mais informação o tornará capaz de prever os movimentos do mundo, das crises e que isso lhe faria teoricamente escolher aqueles investimentos que nesses cenários imaginários seriam os mais rentáveis.

Abandone definitivamente essa crença!

É impossível prever o que vai acontecer! Uma vez que o investidor entende que ver o futuro é impossível, as decisões ficam mais simples e fica mais fácil centrar suas decisões em seus objetivos, sem ansiedade.

Ok! Mas então o que fazer para montar o time (a carteira ideal)?

1- Monte sua reserva de emergência. A reserva de emergência deve ter entre 6 e 12 meses o seu custo de vida mensal e ser alocada em produtos de alta liquidez e baixo risco, como fundos DI, tesouro Selic ou CDBs de liquidez diária.

2- Defina objetivos financeiros de curto (0 a 2 anos), médio (2 a 5 anos) e longo prazo (acima de 5 anos) e o montante necessário para esses objetivos.

3- Entenda quais investimentos são mais adequados para o curto, para o médio e para o longo prazo. Inclusive eu falei sobre eles no artigo “Onde investir com a Selic em queda”. Sugiro que leia.

4- Adeque os seus investimentos aos prazos dos seus objetivos e pronto! Simples assim!

Mas o cenário econômico não deve ser considerado na montagem da carteira ideal?

Talvez sim. O cenário econômico pode oferecer oportunidades que você pode aproveitar. Mas isso só será possível se você tiver objetivos e prazos que te permitam usufruir deles. Os fatores que vão de fato nortear suas decisões são, em ordem de importância:

1- Necessidades pessoais / objetivos financeiros

2- Prazos / horizontes das necessidades e objetivos pessoais

3- Montante atual: quanto você tem hoje para investir?

4- Perfil de risco pessoal: quanto de oscilações você tolera nos seus investimentos?

5- Produtos elegíveis: são os produtos que, após um filtro inicial, são adequados para seus objetivos, prazos, montante e perfil de risco.

6- Cenário econômico: apenas para a parte da carteira que te permita aproveitar os cenários

Por que os cenários econômicos podem não ser tão importantes na montagem de sua carteira ideal?

Porque para a reserva de emergência e para objetivos de curto prazo, os investimentos mais adequados são aqueles mais líquidos e de baixo risco. Então esteja o cenário que estiver, isso não vai mudar.

Já para aqueles projetos de longo prazo, quando você pensa em 10, 20 anos, os acontecimentos dos cenários de hoje serão diluídos no tempo, os presidentes já terão sido trocados várias vezes, a economia local, nacional e mundial terá suas alterações e para o longo prazo, tudo isso se torna irrelevante. Lembrando ainda que quando um investidor está montando seu patrimônio, ele sempre terá recursos para investir para o longo prazo de maneira que sua carteira ao longo do tempo terá investimentos adquiridos nos diversos cenários, o que também vai diluir os acontecimentos de momento.

Nos objetivos de médio prazo, o cenário pode estar presente. E aí uma leitura adequada da situação econômica pode lhe ser útil. A decisão entre prefixar ou pós-fixar títulos para esses prazos ou a busca por fundos multimercados que se enquadrem nesse horizonte de investimento, podem fazer sentido. Portanto, é no médio prazo, que o cenário trará impactos mais significativos na sua decisão!

Mas e para aqueles que estão iniciando os investimentos?

Se você estiver começando agora seus investimentos, sugiro que comece primeiro montando sua reserva de emergência, pois ela será útil para que, em caso de qualquer necessidade, você tenha de onde tirar recursos sem comprometer outros planos.

A reserva de emergência é a blindagem dos seus projetos e objetivos futuros. Uma vez que você sempre a tenha e a mantenha, você não precisará sacrificar investimentos de longo prazo em caso de necessidades inesperadas, pois ela funcionará como seu escudo.

Depois de montada a reserva de emergência, passe para os objetivos de médio prazo e posteriormente para os de longo. Assim, você poderá realizar seus sonhos utilizando uma carteira que seja voltada para realizar seus objetivos de vida.

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