Brasil: cenário macro

A produção industrial cresceu 0,8% ao mês s.a. em maio, acima da nossa estimativa (0,3% ao mês) e logo acima da mediana das expectativas do mercado (+ 0,6% ao mês). A surpresa positiva com a produção industrial foi magnificada pela revisão altista do resultado de abril, o que significa que o avanço ocorreu sobre bases mais fortes. Numa perspectiva mais ampla, entretanto, o setor está sem tendência clara desde o início de 2016, sem sinais de uma recuperação robusta por enquanto. Olhando para frente, o atual ciclo de queda de juros é certamente positivo para as perspectivas da atividade econômica. Mas a deterioração do cenário político nas últimas semanas fez aumentar as incertezas e volatilidade dos preços dos ativos, ambos com um potencial de impactar negativamente a economia. De fato, os indicadores de confiança caíram em junho, enquanto a utilização da capacidade instalada do setor permaneceu perto do mínimo histórico.

Ainda no campo de atividade, a tendência geral de recuperação do setor automotivo, por outro lado, permanece. De acordo com a Fenabrave, 189 mil veículos leves (automóveis e comerciais leves) foram vendidos em junho. Na comparação interanual (ponderando por dia útil), observamos mais uma alta, a quarta consecutiva, após 26 meses que queda (+13,7% ao ano, após +17,3% ao ano no mês anterior). De fato, há sinais de recuperação na margem – na série ajustada pela sazonalidade, observamos aumento de 5,0% ao mês em junho, após alta acumulada de 13,4% nos quatro meses anteriores. Apesar da recuperação recente, o nível das vendas segue bastante fraco, similar ao observado na virada de 2008 para 2009. Enquanto isso, a produção de veículos foi de 212,3 mil unidades em junho – o número representa alta de 15,1% ao ano por dia útil (ante +41,6% em maio). Esse é o oitavo mês consecutivo em que as vendas de veículos sobem na comparação interanual. Na série com ajuste sazonal, a produção de veículos caiu 7,4% ao mês, compensando apenas parcialmente o salto de 15% ao mês em maio. Com isso, a média móvel de 3 meses segue avançando (2,2% ao mês), mantendo a tendência geral de recuperação. Os números fortes recentes provavelmente são influenciados pela liberação de recursos de contas inativas do FGTS, de forma que a sustentabilidade desse movimento é incerta.

Passando para o campo inflacionário, o IBGE divulgou hoje pela manhã que o IPCA de junho apresentou deflação de 0,23% ao mês, abaixo da mediana das expectativas de mercado (-0,19% ao mês) e da nossa estimativa (-0,21% ao mês). Assim como em meses recentes, o resultado de junho foi atípico e bem abaixo da mediana do mês (+ 0,28% ao mês, considerando o período entre 2000-20016) e do mesmo período do ano anterior (+0,35% ao mês). Assim, o cenário de inflação benigna segue se confirmando, e a inflação acumulada em 12 meses diminuiu para 3,0% ao ano, atingindo o piso do intervalo em torno da meta de inflação. Apesar do declínio considerável nos últimos meses, as taxas acumuladas em 12 meses devem declinar ainda mais ao longo do segundo semestre, antes de acelerar suavemente no final do ano. À luz dos últimos resultados, decidimos reduzir nossa expectativa para o IPCA de 2017 para 3,4% (de 3,6% anteriormente); os riscos para cima viriam da bandeira vermelha (mais cara) sobre tarifas de eletricidade, da elevação de impostos sobre combustíveis ou de qualquer turbulência política significativa que afete a taxa de câmbio.

Deixe seu comentário 0